O que é ser de direita ou de esquerda

Nota: Não use este texto de forma acadêmica e afins. É apenas a exposição das minhas ideias a respeito do tema.

Certa vez, li um artigo no Instituto Mises Brasil (IMB) entitulado Nem esquerda, nem direita.” Leonard Read — o autor do artigo — sugere que o libertário não está situado no espectro político (esquerda-direita). Em verdade, difícil é entender o espectro, uma vez que há um pluralismo ideológico em demasia; mas não é impossível. E isso também não significa que devemos abandonar a díade, pois são palavras que possuem diversas acepções, presentes a tempo todo no debate político, e de suma importância para o interlocutor.

A díade (grupo de dois) esquerda-direita é um termo antitético, empregada para o contraste de ideias do pensamento político.

“Enquanto termos antitéticos, eles são, com respeito ao universo ao qual se referem, reciprocamente excludentes e conjuntamente exaustivos. São excludentes no sentido de que nenhuma doutrina ou nenhum movimento pode ser simultaneamente de direita e de esquerda. E são exaustivos no sentido de que, ao menos na acepção mais forte da dupla, […], uma doutrina ou um movimento podem ser apenas de direita ou de esquerda.”

BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. 2001. Pg 31.

Norberto Bobbio

O autor Norberto Bobbio faz uma crítica a diversos pensamentos e autores com respeito à díade e à negação desta, e, dessa forma, distingue-as em: esquerda em prol do igualitarismo, e, direita, inigualitarismo.

No entanto, é importante ressaltar que a esquerda não defende uma “igualdade absoluta”, e nem a direita a “inigualdade absoluta”. Ainda porque, como sugere o autor, dizer igualdade absoluta poderia ser catastrófico. “Igualdade sim, mas entre quem, em relação a quê e com base em quais critérios?” Um mesmo princípio que sirva a todos os homens? Mesmo entre as crianças, os retardados mentais e semelhantes?

É possível dizer que a esquerda apoia a equidade, enquanto a direita, a eficiência. Dessa forma, percebemos que a díade deixa de ser antitética (conforme ele a define). O contrário de equidade é a iniquidade, e; o contrário de eficiência é a ineficiência. No entanto, isso não significa que não podemos distinguir a díade como Bobbio distinguiu. Equidade e eficiência podem ser formas de facilitar o entendimento acerca do espectro político. A diferença entre a distinção que faço e a de Bobbio é que o seu conceito de igualdade é elástico. Vejamos o que ele tem a dizer:

“O conceito de igualdade é relativo, não absoluto. É relativo ao menos a três variáveis que precisam ser consideradas toda vez que se introduz o discurso sobre a maior ou menor desejabilidade, e/ou sobre a maior ou menor realizabilidade da ideia de igualdade: a) os sujeitos entre os quais se trata de repartir os bens e os ônus; b) os bens e os ônus a serem repartidos; c) o critério com base no qual os repartir.”

Pg 96.

E, pouco depois, diz:

“Os sujeitos podem ser todos, muitos ou poucos, até mesmo um só.”

Pg 97

(Sobre o fato de ser até mesmo a um, creio que trata-se de um engano do autor, que, mais tarde, no livro, diz que a “igualdade indica relação entre dois ou mais entes”, enquanto a liberdade trata-se de um status.)

Estabelecendo as distinções, precisamos ressaltar outros aspectos: o extremismo e o moderantismo. Enquanto os moderados dão luz às ideias e são gradualistas e evolucionistas, eles diferem-se dos extremistas sobretudo nos métodos. É possível notar que os métodos extremistas são interligados, como podemos perceber que diversos extremistas de direita adotavam modelos de extremistas de esquerda. Assim como sempre houve intelectuais de esquerda (ou mais posicionáves a essa parte da díade) com ramificações direitistas (gramscismo de direita, hegelianismo de direita). Nesse aspecto, não é difícil entender porque há tanta similaridade entre os extremistas (como os fascistas e comunistas) quando os notamos no espectro político. Dessa forma, o extremismo-moderantismo diz respeito ao método; e, esquerda-direita, aos fins.

Podemos entender, também, porque as classificações do nazismo à direta. Dizer que o nazismo é de esquerda compete a três erros: revisionismo histórico, anacronismo e, por vezes, o economicismo. O erro acontece exatamente porque, no polo extremista, é difícil ter uma compreensão plena.

Hitler e o nazismo

Assim, entendemos a igualdade defendida pela esquerda. Mas, e a inigualdade de direita? Podemos entender a inigualdade como desigualdade, a qual a direita defende como sendo naturais. Também podemos perceber a característica peculiar do nazismo, sob o olhar das desigualdades naturais, o qual defende a eugenia, que é a seleção de jovens mais aptos para a procriação, e o ataque contra deficientes, judeus etc. Essa visão assenta sobretudo nas desigualdades naturais, numa espécie de “seleção natural artificial”.

É verdade que existem desigualdades naturais, tanto ao nascer, ao meu empenho — e talvez sejam coisas que a ciência não possa provar contra. Essas desigualdades naturais provocarão desigualdades sociais. Mas não podemos considerar isso como o todo. Muitos grandes ricassos são o que são através do ofício de práticas desvirtuosas, como nos oligopólios, em áreas bancárias etc. Ou seja, a direita defende que as desigualdades são naturais, mas não se deixe confundir com a falácia naturalista (“se é natural, é bom”). Ter noção de que assassinatos ocorrem na natureza não significa que é uma boa prática nas relações sociais.

A eficiência entra no discurso ao sabermos (ou pensar que sabemos) que as desigualdades sociais irão continuar existindo [pois são naturais], mas que a forma de mitigá-la mais eficiente não é interferindo. Dessa forma, entendemos a grande divisão entre esquerda e direita. Mas há somente isso?

Entre a díade, há, no meio, o centro. Assim, o centro atenua o choque esquerda-direita. Trata-se, agora, de uma tríade. (A Terceira Via é nada mais, nada menos do que um centro.)

O centro é uma visão mais “pluralizada”. Um famoso político, Enéas Carneiro, às vezes chamado de Terceira Via, tem o perfil centrista, centro-direita. O espectro político não tem definição absoluta; sua definição é contínua e possui um contexto histórico. Se imaginamos um cenário entre dois opostos, um seria esquerda e outro, inevitavelmente, direita. Porém, quando ampliamos o cenário, deixamos um ambiente mais plural. Basta perceber nas recentes eleições: Bolsonaro e Haddad, direita e esquerda, respectivamente. Porém, quando aparece João Amoêdo, Geraldo Alckmin, acontece: a) ou Bolsonaro ia à extrema-direita; b) ou Amoêdo e Alckmin esfriava, e caminhavam a centro-direita.

Bolsonaro e Haddad, respectivamente

Podemos entender dessa forma. Imagine que estou no topo da pirâmide, e quanto mais acima, “mais comunista”. Ou seja, sou um comunista. A forma que eu raciocino é taxar quem está abaixo de mim como fascista ou direitista (mesmo que o sujeito em questão seja um socialista-democrático), de forma bastante polarizada.

Enfim, o centro pega ideias e as conecta, ou descarta as que discorda e soma em ambos os lados o que concorda; mas não as deixa em contradição, numa espécie de dissonância cognitiva.

E, com esse texto, espero ter esclarecido algumas coisas, não obstante o fato de nossa conversa não ter terminado por aqui. Há muito o que dizer sobre o espectro político. Mas deixamos concluído, por enquanto: esquerda e direita, equidade (igualitarismo) e eficiência (inigualitarismo) respectivamente.

4 comentários em “O que é ser de direita ou de esquerda

  1. Pettrus, seguinte: analisei suas ideias e achei bem dinâmico, o fato é: quero lhe dá uma ideia, se você acrescentar a história da direita e esquerda vai fortalecer ainda mais sua matéria; um exemplo: você falar mais da revolução francesa e tals….

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