The problem of economic calculation summarized by JGH

The best-known element of Mises’s theory of economic calculation is without any doubt the socialist-calculation argument. Mises presented it in a 1920 paper on “Economic Calculation in the Socialist Commonwealth,” in which he defended two propositions:

One, socialist societies could not rely on an economic calculus of the sort known from market economies, because entrepreneurial calculations are based on money prices for factors of production. But money prices for factors of production cannot exist in socialism because prices can only come into existence in exchanges, and exchanges presuppose the existence of at least two owners. Now, the very nature of socialism—and, as it were, its usual definition— is that all means of production are under a unified control. They all belong to one economic entity: to the collective, or the socialist commonwealth, or the state, or however else this entity might be called. The crucial fact is that, from the economic point of view, there is in any socialist regime only one owner of all factors of production. Consequently, no factor of production can here be exchanged. Further, there can be no money prices for factors of production in such regimes. And therefore no socialist community can allocate its factors of production on the basis of an economic calculus, such as is known from capitalism.

Two, there were no other means of performing an economic calculus. Economic calculation required money prices for factors of production, and it could therefore only come into existence where factors of production were privately owned.

Jörg Guido Hülsmann

(INTRODUCTION TO THE THIRD EDITION: FROM VALUE THEORY TO PRAXEOLOGY; EPISTEMOLOGICAL PROBLEMS OF ECONOMICS, LUDWIG VON MISES)

O problema central do socialismo


A origem do cálculo econômico


Em 1920, na Áustria, em um período no qual o ideal socialista alcançava grande aceitação, o economista Ludwig von Mises publicou um artigo em que defendia uma tese: a de que o socialismo não seria uma forma possível de organização social. Mises observava que as críticas ao “capitalismo burguês” vinda dos teóricos marxistas frequentemente expressavam-se pouco a respeito da natureza econômica socialista. Então formulou sua tese central: “Onde não existe mercado livre, não existe mecanismo de preços; sem um mecanismo de preços, não existe cálculo econômico.”Segundo Mises, os economistas não percebiam que o cálculo econômico não era uma categoria da ação humana. Consideravam que o cálculo econômico poderia ser compreendido sem um denominador comum, i.e, a moeda; enquanto a moeda, e consequentemente os preços, dizia ele, era na verdade imprescindível ao cálculo econômico. Acreditavam que as trocas interpessoais diretas (produto de primeira ordem por outro de mesma ordem; escambo) eram viáveis numa economia que tivesse cálculo econômico.


Que é então o cálculo econômico?


A teoria moderna do valor e dos preços mostra como as escolhas dos indivíduos, sua preferência por certas coisas e rejeição por outras, resultam no campo da troca interpessoal, no surgimento dos preços de mercado. Em uma economia avançada, as formas como os bens podem se combinar nos processos produtivos são incontáveis, de modo que, sem um sistema de preços de mercado para que se possa comparar benefícios com custos, seria impossível escolher combinações economicamente viáveis. Essa é a natureza do cálculo econômico.


Que é o socialismo?


No socialismo, a propriedade dos meios de produção, que antes era privada, passa a ser do Estado em essência e é centralmente planejada. Os lucros agregados são distribuídos igualmente ou equanimamente— mas isso é outro assunto.A ideia socialista negligencia a teoria de valor da utilidade marginal decrescente, optando pelo valor-trabalho. Grande parte do raciocínio seria negado somente por este fato. Mises pondera:

A ilusão de que seja possível uma direção racional da ordem econômica numa sociedade baseada na propriedade pública dos meios de produção deve sua origem à teoria do valor dos economistas clássicos, e deve sua persistência aos inúmeros economistas modernos que não foram capazes de levar às últimas conclusões o teorema fundamental da teoria subjetiva. Portanto, as utopias socialistas foram geradas e preservadas pelas deficiências daquelas escolas de pensamento que os marxistas rejeitam como “um disfarce ideológico dos interesses egoístas da burguesia exploradora”. Na verdade, foram os erros daquelas escolas que fizeram prosperar as ideias socialistas. Este fato demonstra claramente o vazio dos ensinamentos marxistas a respeito das “ideologias”, bem como o de seu descendente moderno, a sociologia do conhecimento.

Ademais, é fato que o trabalho não é algo homogêneo. Supondo que o valor esteja nas horas trabalhadas, então o salário, por assim dizer, viria da produção em horas trabalhadas. Isso é assumir que o trabalho é qualitativamente homogêneo e uniforme. Isso, a fortiori, leva a uma valoração distinta de acordo com as diferenças das demandas e das ofertas dos produtos. A remuneração da mão-de-obra seria necessariamente arbitrária: “Por exemplo, a oferta de obras-de-arte não pode ser aumentada, ceteris paribus, sem que haja uma queda na qualidade do produto.”A despeito das grandes discussões sobre o assunto, estamos analisando o socialismo científico, mas isso se aplica a qualquer sistema que se pareça com tal. É necessário saber que o cálculo econômico, em contraste com o socialismo, se efetua melhor no capitalismo laissez-faire.Dito isto, não nos interessa aqui combater “fatos com fatos”: os teóricos marxistas poderiam alegar que a URSS não era socialista, enquanto outros negariam tal afirmação; uns diriam que o planejamento central funcionava, outros dirão que não. A priori, teoria deve ser combatida com teoria, inclusive por motivos epistemológicos. Mises adentra nessa questão com o conceito de “compreensão”— algo feito essencialmente por historicistas, dado que não há valor epistêmico nestes.[1]


O problema do cálculo econômico


A ação consiste no emprego de meios para determinados fins. Os fins têm, como objetivo, a saída de um estado de menor satisfação para maior satisfação. Toda ação presume valorações, e essas valorações não são quantificáveis cardinalmente, apenas ordinalmente. Sem o homem, não existe valor.O espaço-tempo e a realidade empírica não nos tem nada a dizer sobre a valoração; a valoração é um processo consciente e humano frente ao mundo. Diz Mises: “os objetivos finais são um dado irredutível; são meramente subjetivos e diferem de pessoa para pessoa e para a mesma pessoa em momentos diferentes de sua vida.”Sabendo disso, a tecnologia pode ser eficiente no que tange ao emprego de meios, com sua causalidade objetiva entre os fatos que melhor podem alcançar os fins; mas a tecnologia não pode ditar quais serão os fins. Mesmo a tecnologia não teria utilidade sem os preços. Por tal fato, “a moeda se torna o veículo do cálculo econômico.” Entenda que, para Mises, o problema do cálculo econômico não é essencialmente monetário, ele se aplica justamente nas sociedades avançadas, e não primitivas (que lidavam com processos de produção extremamente simples). A característica adversativa se resume, a priori, nisso.


O cálculo econômico econômico sob o socialismo


O mecanismo de preço é uma informação. Toda interferência arbitrária nos preços, seja direta ou indireta, destrói informações econômicas. Isso pode ocorrer quando o Estado manipula o preço de commodities, quando o juros no crédito é artificialmente reduzido etc. O preço é uma informação racional indispensável à alocação de recursos. É a conditio sine qua non do Cálculo Econômico.Para tal, a organização socialista é irrelevante para a discussão. O que importa é o já dito: a propriedade comunal do meios de produção e o planejamento central. Bens de produção, em uma comunidade socialista, são exclusivamente comunais; eles são
propriedade inalienável da comunidade — logo, eles são res extra commercium (coisas fora do comércio). (Podemos pensar nos valores monetários de um homem? Não da mesma forma que numa sociedade escravista, e certamente não na forma de preços. Quando o homem é fim em si mesmo, tornando-se res extra commercium, seu preço é incalculável. Por sinal, a informação do preço é sempre histórica.) Daqui poderemos derivar o raciocínio a priori de Mises.A moeda como denominador comum poderá existir no socialismo, porém, novamente, isso é irrelevante; a forma como os preços operam são diferentes dos de uma sociedade capitalista. O valor, sendo subjetivo como é, ao transformar-se em mercadoria com um preço passa ao status de valor objetivo perante às trocas.

Há duas condições que governam a possibilidade de se calcular o valor em termos de dinheiro. Primeiramente, não são apenas os bens de ordem mais baixa que devem estar dentro do âmbito da troca; os de ordem mais alta também têm de estar. Se eles não fossem incluídos, as relações de troca não surgiriam. As considerações que predominam no caso em que Robinson Crusoé, em seus domínios e por meio de sua própria produção, pretende trocar trabalho e farinha por pão, são indistinguíveis daquelas que predominam quando ele está preparado para trocar pão por roupas no mercado aberto. Portanto, é de certa forma correto dizer que cada ação econômica, incluindo a própria produção de Robinson Crusoé, pode ser denominada de troca.

A falta de preços irá arruinar tanto a alocação racional como o cálculo dos custos e lucros de uma determinada produção, dos preços dos insumos etc. O máximo que um Estado socialista pode fazer, e.g, na construção de uma ferrovia, é estipular o valor em uma concepção vaga, mas nunca objetiva (ignorando os incentivos). Os bens de ordem superior sem valor econômico — no sentido de preços — levam a um efeito em cascata nas trocas em geral. O empresário, no livre-mercado, não precisa calcular cada preço, pois a informação — dispersa como Hayek mostrou — é complexa e nem o mais sábio dos homens poderia rastreá-la. O preço já está ali: a única coisa que ele precisa calcular cabe ao seu empreendimento.No socialismo, sem aquele que estipula um valor aos bens de produção, quem decidiria o preço do produto? Um diretor-executivo não é um dono; e se há um dono, logo, há uma propriedade privada— o que deixaria de ser um socialismo. Além disso, todos esses bens de ordem superior não mais teriam preços por também serem distribuídos. Não havendo preços, não haverá cálculo econômico. Sem um cálculo econômico, bem, os desastres são consequências. A política de um Comitê de Planejamento Central será inerentemente um tatear no escuro.

Ademais, a mente de um só homem, por mais brilhante que seja, é incapaz de compreender a importância de qualquer um dos inúmeros bens de ordem mais alta. Nenhum homem pode jamais dominar todas as possibilidades de produção — que são inúmeras — de modo a estar apto a fazer juízos de valor diretamente evidentes, sem a ajuda de algum sistema de computação.


Notas


[1] A compreensão nada mais é que o julgamento de valor à luz dos fatos históricos, e utilizá-los teoricamente. “Os escritos dos historiadores são sempre unilaterais e parciais; não relatam os fatos; deformando-os.” Mises não diz que isso sempre ocorre de maneira consciente, mas a própria forma de pôr à mesa os fatos que são [considerados] relevantes é uma forma de aplicar os juízos de valor. Para uma crítica do Historicismo, veja A Ciência Econômica e o Método Austríaco, Hans-Hermann Hoppe.


Mais sobre


Isso aqui é um breve resumo sobre um assunto complexo. Desnecessário dizer que informações são perdidas no processo. Para tal, recomendo a leitura de alguns textos:

  1. Reforço do resumo: https://www.infomoney.com.br/colunistas/ifl-instituto-de-formacao-de-lideres/o-calculo-economico-sob-o-socialismo/
  2. O Cálculo Econômico sob o Socialismo, de Ludwig von Mises, https://rothbardbrasil.com/o-calculo-economico-sob-o-socialismo-2/
  3. Ação Humana: Um Tratado de Economia, Parte III — Cálculo Econômico, de Ludwig von Mises;
  4. A História do Debate do Cálculo Econômico, de Fábio Barbieri.

Sobre drogas (1/2)

Sumário:

• Introdução
• Sobre a legislação
• Toxidependência: a drogadição


Introdução


O que são drogas? Delimitarei o tema aqui. Drogas são substâncias que produzem mudanças nas sensações, no grau de consciência e no estado emocional das pessoas. As alterações causadas por essas substâncias variam de acordo com as características da pessoa que as usa, da droga escolhida, da quantidade, frequência, expectativas e circunstâncias em que é consumida. Ou seja, são mudanças no funcionamento do organismo.

Porém, vejamos um contraponto com o conceito de fármaco. Fármaco é a tradução do grego phármakon: uma estrutura química conhecida; com propriedade de modificar uma função fisiológica já existente; que tanto designa medicamento como veneno, ou seja, qualquer substância capaz de atuar no organismo, seja em sentido benéfico ou maléfico. Com a definição de droga dada até aqui, tratamos de nada menos do que um fármaco.

E é claro, o critério de licitude torna-se importante aqui. Portanto, além de um mero fármaco, as drogas aqui serão definidas como prejudiciais e ilícitas. Dito ilícitas, estas estão compreendidas na Portaria 344/1998 da Anvisa, que são as substâncias sujeitas a controle especial.

Quando trato algo com sinônimo a mudanças fisiológicas positivas (se porventura tal venha a acontecer), chamarei de remédio ou medicamento.

Aliás, tenhamos uma reflexão: Seria o açúcar uma droga? Suas características: é viciante e venenoso. Mas causa mudanças fisiológicas? Não. Este é um ponto crucial. Só para levantar o raciocínio: seriam as drogas, no sentido popular, relativas? Pois, o vício não é da droga em si, e sim de eu-subjetivo, o indivíduo; assim como o dano, pois depende do vício — com este, todo excesso é prejudicial. Não obstante, esse conceito ainda pode ser empregado como um brasileirismo popular para definir os extremos, os excessos; e também para “pejorativar” algo: “Tal coisa é uma droga!”.

Enfim, tendo o tema delimitado, vamos partir para a legislatura das drogas no Brasil. (Se você espera alguma opinião pessoal, estarão presentes no próximo artigo sobre drogas.)


Sobre a legislação


Algumas pessoas enganam-se quando dizem que o usuário de drogas não comete crime. Sim, a prática ilícita de consumo de drogas configura crime, na medida em que há posse de drogas; porém, houve uma despenalização da privativa de liberdade, isto é, a pena de prisão foi retirada para esta prática.

No que diz respeito à posse de drogas para consumo pessoal, o artigo 28 da Lei prevê as seguintes penas:

Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:

I – advertência sobre os efeitos das drogas;
II – prestação de serviços à comunidade;
III – medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.

Isso tudo é o que caracteriza o usuário, mas os verbos da lei (adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo), realmente, não apontam para o uso em si. Mas, dentro desse panorama, como identificar se a droga tinha finalidades de consumo? Vejamos:

Art. 28. (…) § 2o Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.

Como vemos, a lei não aponta uma quantidade específica do que é para consumo próprio ou não. E, como apontou Cristiano Maronna, em entrevista ao Estadão, “o maior problema da lei é o fato de que a pessoa flagrada com droga passa a ter o ônus de provar que não é traficante. O que contraria a regra constitucional que diz que as pessoas devem ser presumidas inocentes e que quem tem o ônus de provar a acusação é o Ministério Público. No caso da Lei de Drogas acontece uma inversão do ônus da prova que viola a Constituição.” Trata-se também do fulcro da questão.

Evidentemente, como dito nesse segundo parágrafo, existem outras condições para se avaliar o que é consumo pessoal e o que é tráfico, que não somente com relação à quantidade.

Algumas exceções perante à Lei:

Art. 2º Ficam proibidas, em todo o território nacional, as drogas, bem como o plantio, a cultura, a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas, ressalvada a hipótese de autorização legal ou regulamentar, bem como o que estabelece a Convenção de Viena, das Nações Unidas, sobre Substâncias Psicotrópicas, de 1971, a respeito de plantas de uso estritamente ritualístico-religioso.

Parágrafo único. Pode a União autorizar o plantio, a cultura e a colheita dos vegetais referidos no caput deste artigo, exclusivamente para fins medicinais ou científicos, em local e prazo predeterminados, mediante fiscalização, respeitadas as ressalvas supramencionadas.

Com tudo isso citado, somente o que falta é o Artigo 33, que menciona o tráfico. Como eu irei citar somente o essencial, assim como fiz até aqui, irei deixar no final desse tópico (“Sobre a legislação”) a Lei 11.343 — a Lei de Drogas.

Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:

Pena – reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa.

Os verbos do artigos parecem não acabar. E note que distribuir droga, ainda que a prática não incorra em lucro, é tráfico. Se você estiver em uma roda de pessoas desconhecidas e distribui drogas, e além disso, não as usa em conjunto, você é traficante; se pelo contrário, essas pessoas são amigas e você as usa em conjunto, então você é usuário.

Além de tudo, era vedada a conversão em penas restritivas de direito, isto é, converter a pena em algo que não fosse a prisão. Essa decisão foi negada pelo Supremo Tribunal Federal nos autos do Habeas Corpus nº 97.256/RS, declarada como inconstitucional.


Toxidependência: a drogadição


A base neurobiológica responsável pelo desenvolvimento da dependência de drogas é o Sistema de Recompensa do Sistema Nervoso Central. No sistema límbico (área relacionada ao comportamento emocional), acha-se uma área relacionada à sensação de prazer, chamada circuito de recompensa cerebral.


Gráfico construído com dados médicos publicados pela revista britânica The Lancet relacionando o dano à saúde física e a dependência provocados por algumas drogas. As drogas em vermelho são as que causam maior dano e dependência.

Como visto, as drogas com os maiores níveis de periculosidade são: a heroína, a cocaína, os barbitúricos e a metadona (círculos vermelhos).

<Texto em progresso>

O que é ser de direita ou de esquerda

Nota: Não use este texto de forma acadêmica e afins. É apenas a exposição das minhas ideias a respeito do tema.

Certa vez, li um artigo no Instituto Mises Brasil (IMB) entitulado Nem esquerda, nem direita.” Leonard Read — o autor do artigo — sugere que o libertário não está situado no espectro político (esquerda-direita). Em verdade, difícil é entender o espectro, uma vez que há um pluralismo ideológico em demasia; mas não é impossível. E isso também não significa que devemos abandonar a díade, pois são palavras que possuem diversas acepções, presentes a tempo todo no debate político, e de suma importância para o interlocutor.

A díade (grupo de dois) esquerda-direita é um termo antitético, empregada para o contraste de ideias do pensamento político.

“Enquanto termos antitéticos, eles são, com respeito ao universo ao qual se referem, reciprocamente excludentes e conjuntamente exaustivos. São excludentes no sentido de que nenhuma doutrina ou nenhum movimento pode ser simultaneamente de direita e de esquerda. E são exaustivos no sentido de que, ao menos na acepção mais forte da dupla, […], uma doutrina ou um movimento podem ser apenas de direita ou de esquerda.”

BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. 2001. Pg 31.

Norberto Bobbio

O autor Norberto Bobbio faz uma crítica a diversos pensamentos e autores com respeito à díade e à negação desta, e, dessa forma, distingue-as em: esquerda em prol do igualitarismo, e, direita, inigualitarismo.

No entanto, é importante ressaltar que a esquerda não defende uma “igualdade absoluta”, e nem a direita a “inigualdade absoluta”. Ainda porque, como sugere o autor, dizer igualdade absoluta poderia ser catastrófico. “Igualdade sim, mas entre quem, em relação a quê e com base em quais critérios?” Um mesmo princípio que sirva a todos os homens? Mesmo entre as crianças, os retardados mentais e semelhantes?

É possível dizer que a esquerda apoia a equidade, enquanto a direita, a eficiência. Dessa forma, percebemos que a díade deixa de ser antitética (conforme ele a define). O contrário de equidade é a iniquidade, e; o contrário de eficiência é a ineficiência. No entanto, isso não significa que não podemos distinguir a díade como Bobbio distinguiu. Equidade e eficiência podem ser formas de facilitar o entendimento acerca do espectro político. A diferença entre a distinção que faço e a de Bobbio é que o seu conceito de igualdade é elástico. Vejamos o que ele tem a dizer:

“O conceito de igualdade é relativo, não absoluto. É relativo ao menos a três variáveis que precisam ser consideradas toda vez que se introduz o discurso sobre a maior ou menor desejabilidade, e/ou sobre a maior ou menor realizabilidade da ideia de igualdade: a) os sujeitos entre os quais se trata de repartir os bens e os ônus; b) os bens e os ônus a serem repartidos; c) o critério com base no qual os repartir.”

Pg 96.

E, pouco depois, diz:

“Os sujeitos podem ser todos, muitos ou poucos, até mesmo um só.”

Pg 97

(Sobre o fato de ser até mesmo a um, creio que trata-se de um engano do autor, que, mais tarde, no livro, diz que a “igualdade indica relação entre dois ou mais entes”, enquanto a liberdade trata-se de um status.)

Estabelecendo as distinções, precisamos ressaltar outros aspectos: o extremismo e o moderantismo. Enquanto os moderados dão luz às ideias e são gradualistas e evolucionistas, eles diferem-se dos extremistas sobretudo nos métodos. É possível notar que os métodos extremistas são interligados, como podemos perceber que diversos extremistas de direita adotavam modelos de extremistas de esquerda. Assim como sempre houve intelectuais de esquerda (ou mais posicionáves a essa parte da díade) com ramificações direitistas (gramscismo de direita, hegelianismo de direita). Nesse aspecto, não é difícil entender porque há tanta similaridade entre os extremistas (como os fascistas e comunistas) quando os notamos no espectro político. Dessa forma, o extremismo-moderantismo diz respeito ao método; e, esquerda-direita, aos fins.

Podemos entender, também, porque as classificações do nazismo à direta. Dizer que o nazismo é de esquerda compete a três erros: revisionismo histórico, anacronismo e, por vezes, o economicismo. O erro acontece exatamente porque, no polo extremista, é difícil ter uma compreensão plena.

Hitler e o nazismo

Assim, entendemos a igualdade defendida pela esquerda. Mas, e a inigualdade de direita? Podemos entender a inigualdade como desigualdade, a qual a direita defende como sendo naturais. Também podemos perceber a característica peculiar do nazismo, sob o olhar das desigualdades naturais, o qual defende a eugenia, que é a seleção de jovens mais aptos para a procriação, e o ataque contra deficientes, judeus etc. Essa visão assenta sobretudo nas desigualdades naturais, numa espécie de “seleção natural artificial”.

É verdade que existem desigualdades naturais, tanto ao nascer, ao meu empenho — e talvez sejam coisas que a ciência não possa provar contra. Essas desigualdades naturais provocarão desigualdades sociais. Mas não podemos considerar isso como o todo. Muitos grandes ricassos são o que são através do ofício de práticas desvirtuosas, como nos oligopólios, em áreas bancárias etc. Ou seja, a direita defende que as desigualdades são naturais, mas não se deixe confundir com a falácia naturalista (“se é natural, é bom”). Ter noção de que assassinatos ocorrem na natureza não significa que é uma boa prática nas relações sociais.

A eficiência entra no discurso ao sabermos (ou pensar que sabemos) que as desigualdades sociais irão continuar existindo [pois são naturais], mas que a forma de mitigá-la mais eficiente não é interferindo. Dessa forma, entendemos a grande divisão entre esquerda e direita. Mas há somente isso?

Entre a díade, há, no meio, o centro. Assim, o centro atenua o choque esquerda-direita. Trata-se, agora, de uma tríade. (A Terceira Via é nada mais, nada menos do que um centro.)

O centro é uma visão mais “pluralizada”. Um famoso político, Enéas Carneiro, às vezes chamado de Terceira Via, tem o perfil centrista, centro-direita. O espectro político não tem definição absoluta; sua definição é contínua e possui um contexto histórico. Se imaginamos um cenário entre dois opostos, um seria esquerda e outro, inevitavelmente, direita. Porém, quando ampliamos o cenário, deixamos um ambiente mais plural. Basta perceber nas recentes eleições: Bolsonaro e Haddad, direita e esquerda, respectivamente. Porém, quando aparece João Amoêdo, Geraldo Alckmin, acontece: a) ou Bolsonaro ia à extrema-direita; b) ou Amoêdo e Alckmin esfriava, e caminhavam a centro-direita.

Bolsonaro e Haddad, respectivamente

Podemos entender dessa forma. Imagine que estou no topo da pirâmide, e quanto mais acima, “mais comunista”. Ou seja, sou um comunista. A forma que eu raciocino é taxar quem está abaixo de mim como fascista ou direitista (mesmo que o sujeito em questão seja um socialista-democrático), de forma bastante polarizada.

Enfim, o centro pega ideias e as conecta, ou descarta as que discorda e soma em ambos os lados o que concorda; mas não as deixa em contradição, numa espécie de dissonância cognitiva.

E, com esse texto, espero ter esclarecido algumas coisas, não obstante o fato de nossa conversa não ter terminado por aqui. Há muito o que dizer sobre o espectro político. Mas deixamos concluído, por enquanto: esquerda e direita, equidade (igualitarismo) e eficiência (inigualitarismo) respectivamente.

Uma nota de Sam Harris sobre a Igreja

Confesso que, como crítico da religião, dei muito pouca atenção ao escândalo dos abusos sexuais na Igreja Católica. Francamente, senti que isso seria chutar cachorro morto. Esse escândalo foi um dos gols contra mais espetaculares da história da religião, e não havia necessidade de escarnecer a fé em seu momento mais vulnerável e envergonhado. Mesmo em retrospecto é fácil entender o impulso de andar de cabeça baixa: imagine um pio casal mandando seu filho para instrução espiritual na Igreja das Mil Mãos, somente para que ele seja estuprado e silenciado por ameaças de punição no inferno. E então imagine isso acontecendo com dezenas de milhares de crianças na nossa época, e com incontáveis outras por mais de mil anos. O espetáculo da fé depositada num lugar tão errado e traída tão completamente é deprimente demais de imaginar. Mas sempre há mais coisas nesse fenômeno que deveriam ter chamado a minha atenção. Considere a ideologia ridícula que o tornou possível: a Igreja Católica passou dois milênios demonizando a sexualidade humana de uma forma sem paralelo em nenhuma outra instituição, declarando tabus os comportamentos mais básicos, saudáveis, maduros e consensuais. Com efeito, essa organização ainda se opõe ao uso de contraceptivos, preferindo, em vez disso, que as pessoas mais pobres da Terra sejam abençoadas com as maiores famílias e as vidas mais curtas. Como consequência dessa estupidez honorável e incorrigível, a Igreja condenou gerações de pessoas decentes à vergonha e à hipocrisia — ou a uma fecundidade neolítica, à pobreza e à morte por aids. A essa desumanidade some-se o artifício do celibato, e você terá uma instituição — uma das mais ricas da Terra — que atrai de forma preferencial para suas fileiras pederastas, pedófilos e sádicos sexuais, promove-os a posições de autoridade e lhes dá acesso privilegiado a crianças. Finalmente, considere que um número enorme de crianças nasce fora do casamento e têm suas mães solteiras vilificadas em todos os lugares onde há predomínio da Igreja — levando meninos e meninas aos milhares a serem abandonados em orfanatos mantidos pela própria Igreja, apenas para serem estuprados e aterrorizados pelo clero. Aqui, nessa engrenagem demoníaca movida ao longo das eras pelos ventos opostos da vergonha e do sadismo, nós, mortais, podemos por fim vislumbrar quão estranhamente perfeitos são os modos do Senhor. Em 2009, a Comissão Irlandesa de Inquérito sobre o Abuso Infantil (The Commission to Inquire into Child Abuse, cica ) investigou eventos dessa natureza ocorridos em solo irlandês e produziu um relatório de 2600 páginas (www.childabusecommission.com/rpt/). Após ler apenas uma opressora fração do documento, posso dizer que, quando pensarmos no abuso eclesiástico de crianças, é melhor não imaginar as sombras da antiga Atenas e as exortações a um “amor que não ousa dizer seu nome”. Sim, certamente houve pederastas educados no sacerdócio, expressando uma afeição angustiada por garotos que fariam dezoito anos no outro dia. Mas por trás dessas inconfidências há um contínuo de abusos que terminam no mal mais absoluto. O escândalo na Igreja Católica — hoje é possível dizer, o escândalo que é a Igreja Católica — inclui estupro e tortura sistemáticos de crianças órfãs e incapacitadas. Suas vítimas relatam ter sido surradas com cintos e sodomizadas até sangrarem — às vezes por múltiplos agressores — e depois surradas de novo e ameaçadas de morte e punição no inferno se ventilassem uma só palavra sobre os abusos. E, sim, muitas das crianças desesperadas ou corajosas o bastante para relatar esses crimes foram acusadas de estar mentindo e devolvidas a seus algozes para serem estupradas e torturadas novamente. Todas as evidências sugerem que o tormento dessas crianças foi facilitado e ocultado pela hierarquia da Igreja Católica em todos os seus níveis, até e inclusive o córtex pré-frontal do último papa. Em seu posto anterior, como cardeal Ratzinger, Bento xvi supervisionou pessoalmente a resposta do Vaticano aos relatos de abuso sexual na Igreja. O que esse homem tão sábio e compassivo fez ao descobrir que seus funcionários estavam estuprando crianças aos milhares? Chamou a polícia imediatamente e garantiu que as vítimas seriam protegidas de mais torturas? Dá para imaginar que tal rompante de sanidade mental básica ainda teria sido possível, até mesmo na Igreja. Mas, ao contrário, as reclamações repetidas e cada vez mais desesperadas de abuso foram postas de lado, as testemunhas foram pressionadas a ficar em silêncio, os bispos foram elogiados por desafiar as autoridades seculares e os padres criminosos foram realocados, para destruírem novas vidas em paróquias insuspeitas. Não é exagero dizer que, durante décadas (se não séculos), o Vaticano se enquadrou na definição formal de organização criminosa — dedicada não ao jogo, à prostituição, ao tráfico de drogas ou a outros pecados veniais, mas sim à escravização sexual de crianças. Considere as seguintes passagens extraídas do relatório da CICA :

7.129 Em relação a uma Escola, quatro testemunhas fizeram relatos detalhados de abuso sexual, incluindo todas as formas de estupro, por dois ou mais Irmãos, e, em uma ocasião, também por um residente mais velho. Uma testemunha da segunda Escola, na qual há vários relatos, descreveu ter sido estuprada por três Irmãos: “Fui levado para a enfermaria… eles me seguraram na cama, eram uns animais… Eles me penetraram, eu sangrei”. Outra testemunha relatou ter sofrido abuso duas vezes por semana por dois Irmãos nos banheiros perto do dormitório: “Um Irmão ficava vigiando enquanto o outro abusava de mim… [sexualmente]… então eles se revezavam. Todas as vezes acabava em espancamento. Quando contei ao padre na Confissão, ele me chamou de mentiroso. Nunca mais toquei no assunto. “Eu tinha de ir ao quarto dele… [do Irmão X]… sempre que ele queria. A gente apanhava se não fosse, e ele me fazia fazer aquilo [masturbá-lo]. Uma noite eu não [o masturbei]… e havia outro Irmão lá que me segurou, e eles me bateram com um taco de hurling e queimaram meus dedos… [mostra a cicatriz].”

7.232 As testemunhas relataram ter medo especialmente à noite, quando ouviam os residentes gritando nos closets, dormitórios ou no quarto de um funcionário enquanto sofriam abuso. As testemunhas tinham consciência de que coabitantes que eles descrevem como órfãos tinham uma vida particularmente difícil: “Os órfãos se davam mal. Eu sabia… [quem eram]… pelo tamanho deles. Eu perguntava e eles diziam que vinham da instituição tal… Eles eram mais novos. Dava para ouvir os gritos no quarto onde o Irmão… X… abusava deles. “Uma noite, eu mal tinha chegado e vi um dos Irmãos na cama com um dos meninos mais novos… e eu ouvi o moleque gritando e chorando e o Irmão… X… me disse: ‘Se você não ficar na sua, vai ganhar a mesma coisa’. Eu ouvia crianças gritando e você sabia que elas estavam sofrendo abuso, e isso é um pesadelo na cabeça de qualquer um. Você vai tentar fugir… De jeito nenhum eu ia deixar isso acontecer comigo… eu me lembro de um menino que sangrava pelos fundilhos e eu tomei minha decisão, de jeito nenhum aquilo [estupro anal]… ia acontecer comigo… Aquilo ficava passando na minha mente.”

Esse é o tipo de abuso que a Igreja praticou e escondeu desde tempos imemoriais. Mesmo o relatório da cica declinou de revelar o nome dos padres criminosos. Fui despertado de meu sono inconsciente sobre esse assunto por relatos recentes na imprensa (Goodstein e Callender, 2010; Goodstein, 2010a, 2010b; Donadio, 2010a, 2010b; Waking e McKinley Jr., 2010), e especialmente pela eloquência de meus colegas Christopher Hitchens (2010a, 2010b, 2010c e 2010d) e Richard Dawkins (2010a, 2010b).