Uma nota de Sam Harris sobre a Igreja

Confesso que, como crítico da religião, dei muito pouca atenção ao escândalo dos abusos sexuais na Igreja Católica. Francamente, senti que isso seria chutar cachorro morto. Esse escândalo foi um dos gols contra mais espetaculares da história da religião, e não havia necessidade de escarnecer a fé em seu momento mais vulnerável e envergonhado. Mesmo em retrospecto é fácil entender o impulso de andar de cabeça baixa: imagine um pio casal mandando seu filho para instrução espiritual na Igreja das Mil Mãos, somente para que ele seja estuprado e silenciado por ameaças de punição no inferno. E então imagine isso acontecendo com dezenas de milhares de crianças na nossa época, e com incontáveis outras por mais de mil anos. O espetáculo da fé depositada num lugar tão errado e traída tão completamente é deprimente demais de imaginar. Mas sempre há mais coisas nesse fenômeno que deveriam ter chamado a minha atenção. Considere a ideologia ridícula que o tornou possível: a Igreja Católica passou dois milênios demonizando a sexualidade humana de uma forma sem paralelo em nenhuma outra instituição, declarando tabus os comportamentos mais básicos, saudáveis, maduros e consensuais. Com efeito, essa organização ainda se opõe ao uso de contraceptivos, preferindo, em vez disso, que as pessoas mais pobres da Terra sejam abençoadas com as maiores famílias e as vidas mais curtas. Como consequência dessa estupidez honorável e incorrigível, a Igreja condenou gerações de pessoas decentes à vergonha e à hipocrisia — ou a uma fecundidade neolítica, à pobreza e à morte por aids. A essa desumanidade some-se o artifício do celibato, e você terá uma instituição — uma das mais ricas da Terra — que atrai de forma preferencial para suas fileiras pederastas, pedófilos e sádicos sexuais, promove-os a posições de autoridade e lhes dá acesso privilegiado a crianças. Finalmente, considere que um número enorme de crianças nasce fora do casamento e têm suas mães solteiras vilificadas em todos os lugares onde há predomínio da Igreja — levando meninos e meninas aos milhares a serem abandonados em orfanatos mantidos pela própria Igreja, apenas para serem estuprados e aterrorizados pelo clero. Aqui, nessa engrenagem demoníaca movida ao longo das eras pelos ventos opostos da vergonha e do sadismo, nós, mortais, podemos por fim vislumbrar quão estranhamente perfeitos são os modos do Senhor. Em 2009, a Comissão Irlandesa de Inquérito sobre o Abuso Infantil (The Commission to Inquire into Child Abuse, cica ) investigou eventos dessa natureza ocorridos em solo irlandês e produziu um relatório de 2600 páginas (www.childabusecommission.com/rpt/). Após ler apenas uma opressora fração do documento, posso dizer que, quando pensarmos no abuso eclesiástico de crianças, é melhor não imaginar as sombras da antiga Atenas e as exortações a um “amor que não ousa dizer seu nome”. Sim, certamente houve pederastas educados no sacerdócio, expressando uma afeição angustiada por garotos que fariam dezoito anos no outro dia. Mas por trás dessas inconfidências há um contínuo de abusos que terminam no mal mais absoluto. O escândalo na Igreja Católica — hoje é possível dizer, o escândalo que é a Igreja Católica — inclui estupro e tortura sistemáticos de crianças órfãs e incapacitadas. Suas vítimas relatam ter sido surradas com cintos e sodomizadas até sangrarem — às vezes por múltiplos agressores — e depois surradas de novo e ameaçadas de morte e punição no inferno se ventilassem uma só palavra sobre os abusos. E, sim, muitas das crianças desesperadas ou corajosas o bastante para relatar esses crimes foram acusadas de estar mentindo e devolvidas a seus algozes para serem estupradas e torturadas novamente. Todas as evidências sugerem que o tormento dessas crianças foi facilitado e ocultado pela hierarquia da Igreja Católica em todos os seus níveis, até e inclusive o córtex pré-frontal do último papa. Em seu posto anterior, como cardeal Ratzinger, Bento xvi supervisionou pessoalmente a resposta do Vaticano aos relatos de abuso sexual na Igreja. O que esse homem tão sábio e compassivo fez ao descobrir que seus funcionários estavam estuprando crianças aos milhares? Chamou a polícia imediatamente e garantiu que as vítimas seriam protegidas de mais torturas? Dá para imaginar que tal rompante de sanidade mental básica ainda teria sido possível, até mesmo na Igreja. Mas, ao contrário, as reclamações repetidas e cada vez mais desesperadas de abuso foram postas de lado, as testemunhas foram pressionadas a ficar em silêncio, os bispos foram elogiados por desafiar as autoridades seculares e os padres criminosos foram realocados, para destruírem novas vidas em paróquias insuspeitas. Não é exagero dizer que, durante décadas (se não séculos), o Vaticano se enquadrou na definição formal de organização criminosa — dedicada não ao jogo, à prostituição, ao tráfico de drogas ou a outros pecados veniais, mas sim à escravização sexual de crianças. Considere as seguintes passagens extraídas do relatório da CICA :

7.129 Em relação a uma Escola, quatro testemunhas fizeram relatos detalhados de abuso sexual, incluindo todas as formas de estupro, por dois ou mais Irmãos, e, em uma ocasião, também por um residente mais velho. Uma testemunha da segunda Escola, na qual há vários relatos, descreveu ter sido estuprada por três Irmãos: “Fui levado para a enfermaria… eles me seguraram na cama, eram uns animais… Eles me penetraram, eu sangrei”. Outra testemunha relatou ter sofrido abuso duas vezes por semana por dois Irmãos nos banheiros perto do dormitório: “Um Irmão ficava vigiando enquanto o outro abusava de mim… [sexualmente]… então eles se revezavam. Todas as vezes acabava em espancamento. Quando contei ao padre na Confissão, ele me chamou de mentiroso. Nunca mais toquei no assunto. “Eu tinha de ir ao quarto dele… [do Irmão X]… sempre que ele queria. A gente apanhava se não fosse, e ele me fazia fazer aquilo [masturbá-lo]. Uma noite eu não [o masturbei]… e havia outro Irmão lá que me segurou, e eles me bateram com um taco de hurling e queimaram meus dedos… [mostra a cicatriz].”

7.232 As testemunhas relataram ter medo especialmente à noite, quando ouviam os residentes gritando nos closets, dormitórios ou no quarto de um funcionário enquanto sofriam abuso. As testemunhas tinham consciência de que coabitantes que eles descrevem como órfãos tinham uma vida particularmente difícil: “Os órfãos se davam mal. Eu sabia… [quem eram]… pelo tamanho deles. Eu perguntava e eles diziam que vinham da instituição tal… Eles eram mais novos. Dava para ouvir os gritos no quarto onde o Irmão… X… abusava deles. “Uma noite, eu mal tinha chegado e vi um dos Irmãos na cama com um dos meninos mais novos… e eu ouvi o moleque gritando e chorando e o Irmão… X… me disse: ‘Se você não ficar na sua, vai ganhar a mesma coisa’. Eu ouvia crianças gritando e você sabia que elas estavam sofrendo abuso, e isso é um pesadelo na cabeça de qualquer um. Você vai tentar fugir… De jeito nenhum eu ia deixar isso acontecer comigo… eu me lembro de um menino que sangrava pelos fundilhos e eu tomei minha decisão, de jeito nenhum aquilo [estupro anal]… ia acontecer comigo… Aquilo ficava passando na minha mente.”

Esse é o tipo de abuso que a Igreja praticou e escondeu desde tempos imemoriais. Mesmo o relatório da cica declinou de revelar o nome dos padres criminosos. Fui despertado de meu sono inconsciente sobre esse assunto por relatos recentes na imprensa (Goodstein e Callender, 2010; Goodstein, 2010a, 2010b; Donadio, 2010a, 2010b; Waking e McKinley Jr., 2010), e especialmente pela eloquência de meus colegas Christopher Hitchens (2010a, 2010b, 2010c e 2010d) e Richard Dawkins (2010a, 2010b).

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